11.12.17

O tempo passa e os ciclos terminam



Durante aqueles meses escrevi páginas de obrigação, arte e história que, mesmo sendo meu orgulho, me fizeram esquecer como é escrever de mim pra mim. Também vivi situações que me fizeram esquecer como é gostar de mim por mim mesma. Me perdi nesse tempo que esqueceu que eu tinha hora pra voltar.

Sempre acho que vou conseguir assumir o controle da situação. Que tá tudo bem, que o território não é desconhecido e que eu não vou tropeçar por aí. Mas acaba que a areia é movediça, a pista esburacada e acabo estagnada. A verdade é que eu nunca tô no controle — e isso me surpreende cada vez mais. Tem tanta coisa que eu não sei (ainda). Tanta coisa que é melhor nem saber.

A aleatoriedade das coisas me tira do eixo que deveria estar me levando pra casa. Mas eu sempre me deixo ir. Sempre deixo. Quero passar por todas as possibilidades de atalhos que existem na extensão do que eu sou até onde eu quero chegar. E se um dia eu acabar em alguma rua sem saída, eu vou saber como voltar — e começar tudo de novo. Um dia o ciclo sempre termina.

E eu posso estar errada. Posso até ser um monte de erros e alguns acertos juntos. Posso ter um pé aqui na terra e outro na estratosfera e nunca permanecer do mesmo jeito por muito tempo. Mas entre ter controle e acreditar, eu sempre vou preferir acreditar. Mesmo que eu não encontre nada no fim da trilha.

Eu sou tudo isso, nada mais e nada menos.

Não quero ser nada que não seja eu.

1.11.17

Não sei se eu cresci ou se o mundo diminuiu.



Não sei se eu cresci ou se o mundo diminuiu.

Dez anos atrás aquelas calçadas pareciam grandes e assustadoras demais pra eu perder um rosto conhecido de vista. Elas depois virariam o palco das minhas idas e vindas diárias que só faziam minha cabeça e meus pés doerem — só alguns tantos metros de pisadas e histórias de vida ambulantes —, e eu não sabia qual época me dava mais medo.

O primeiro dia de junho era sinônimo de espera, frio nostálgico e morangos. Mas as massas de ar fugiram do roteiro com os anos e já não era mais tão divertido assim ficar mais velha. Acho que eu fiquei fadada a um crescimento muito pensado — aprendi a sentir demais quando o resto do mundo já vivia. Só porque eu queria traduzir tudo em várias palavras bonitas que registrassem isso pra sempre. E tá registrado: hoje fico atônita se eu não consigo colocar alguma coisa no papel.

Vai ver meu mundo diminuiu porque eu cresci. As coisas do dia a dia parecem cada vez mais miúdas e o tempo parece passar cada vez mais rápido porque é ultrapassado por coisas que a gente vai considerando mais importantes. É quase loucura pensar que aproximadamente 8800 horas cabem num ano que acaba em 12 piscadas. É loucura pensar que esse ano fiquei quase oito meses sem sequer abrir os olhos (e só agora enxergo o suficiente pra dar alguma coesão em tudo isso que passou tão rápido e ao mesmo tempo tão devagar).

O tempo passa e as coisas vão acontecendo mais e mais e se juntando com coisas que já existem e virando um enorme monte de coisas fazendo todo o resto diminuir e -


- vai ver eu só tenho medo de diminuir junto.

30.12.16

Aprendi

Aprendi a andar sozinha (a dançar sozinha). Aprendi a dizer mais "sim". Aprendi a dizer mais "não". Aprendi com esses sim's e esses não's. Aprendi com as intenções ruins das pessoas. Aprendi a ser mais desconfiada, mas que não dá também pra perder toda confiança. Aprendi que tem gente que mente pra se favorecer mais do que eu pensava. E que é muito humano tomar essas decisões ruins. Aprendi a conhecer mais pessoas — a re-conhecer pessoas. Aprendi que elas gostam de pré-julgamentos. Aprendi a não me abalar mais tanto com esses pré-julgamentos. Aprendi que todo mundo tem perspectivas diferentes sobre todo mundo. Aprendi que pouca gente fica no final. Aprendi a dizer adeus.

Aprendi também que eu posso ser eu. Que eu posso ser pássaro. Aprendi que sou forte e não mereço qualquer migalha. Aprendi que coincidências existem sim, mas que o destino sempre acaba dando uma mãozinha. Aprendi que tudo acontece por um motivo. Aprendi que eu tenho muito mais o que ver por aí. Aprendi a amar mais o mar. A sentir mais o cheiro da chuva depois de muita seca. Aprendi que sou só mais um tanto de pó de universo. Que eu sou feita de estrelas. Aprendi que o negativo inverte tudo, o preto vira branco e o branco vira preto (aprendi que eu tenho invertido muito as coisas). Aprendi a agradecer todo dia, que eu sou sortuda pra caramba. Aprendi que tudo muda. Aprendi que tudo passa. Aprendi que 2016 não foi um ano ruim, só não foi do jeito que eu queria. Aprendi que o mundo não acaba só por isso. Enfim aprendi.

Virei o ano passado chorando naquele mesmo sofá, do lado da labradora que cresceu comigo desde 2003: eu achava que era mesmo o fim do mundo — pra mim era. Depois disso tiveram ainda vários outros fins do mundo. Chorei em outros muitos dias do calendário, e a labradora já não estava mais lá. Parecia sempre um nó na garganta que acabaria de me enforcar, mas na manhã seguinte eu sempre acordava. Nunca vou esquecer que colocar um travesseiro no meio resolve tudo.

Não posso deixar de aprender que eu cheguei em mais um dia 31 de dezembro e isso não é atoa. Senti a luz do sol batendo no meu rosto hoje e tive finalmente a certeza que valeu a pena chegar. Eu tô aqui. 2017 tá logo ali. Só contar até doze de olhos fechados e ele chega, e depois mais um milhão de anos pra aprender mais um milhão de coisas. - Meu Deus, eu quero muito aprender. - Obrigada, 2016.

17.11.16

Voa.



Saudade de quando eu olhava pra frente e via o infinito. Saudade da água salgada no cabelo, que fazia interferência pra que nenhum pensamento ruim conseguisse entrar. Esfoliei meus pés, lavei a alma e achei que nada mais a partir daí iria me afetar. A gente sempre acha que na volta pra casa tudo vai estar diferente.

Pasmem: nunca tá. A vida continua do mesmo jeito, seguindo o mesmo curso que seguia quando a gente deixou ela aqui. A gente volta e tudo volta junto. A tatuagem que eu fiz pra marcar o ponto em que eu me libertei de algumas amarras perdeu um pouco do sentido quando de repente eu me vi presa de novo. Mas sei que quando olhar eu sempre vou lembrar que consigo sair de uma gaiola — quantas vezes eu quiser. O segredo tá nesse último verbo. Eu tenho que querer. E quero. E vou.

Sou uma andorinha que quebrou as asas diversas vezes em um período que foi mais duro que todas as correntes de ar que já teve que enfrentar. Mas renasço como fênix. E transcendo. Não é de hoje que eu preciso me reinventar e nisso eu sei que tem muita gente por aqui pra me ajudar.

Voa, vai.