8.7.18

Pó de universo



Ela que é meio pássaro. E meio peixe — desses fora d'água. Meio sem saber. De um jeito que nem todo mundo entende ou gosta ou aceita. Às vezes quer o mundo de perto. Às vezes se vê melhor afastada. E sabe que é bem melhor ser quem ela realmente é do que tentar ser outra coisa só pra ser aceita.

Queria eu ensinar pra ela que não precisa ser suficiente pra ninguém, e que suficiência é um bastar medíocre pra quem não se completa. Queria dizer pra ela se transbordar com o mundo, com as palavras e com pessoas que sublinhem suas partes mais bonitas, ao invés das que riscam. Que algumas delas foram meticulosamente escolhidas pra aparecer em certas fases da nossa vida e — mesmo que dure dois dias, dois meses ou dois anos —, o depois nunca é igual ao que seria sem isso. Tudo passa e se transforma, o estranho é viver a efemeridade disso.

De dia ela é mais feliz. Na maior parte do tempo nada acontece, como num filme francês. Acho que cansa tentar ser desesperadamente quem a gente quer ser. E cansa tentar ser agora quem a gente esperava ser — e nunca é. Eu, que sou ela, só quero ser ela mais uma vez. Quero ser a pessoa feliz às oito da manhã pelas ruas de Madrid, quero sera pessoa cansada depois de nove horas de trabalho e mais duas horas de ônibus. Quero ser casa e carnaval, sair às 21 e voltar às 23, não querer ficar sozinha e não deixar quase ninguém entrar.

Não quero ser nada que não seja eu. Por trás de toda minha pequeneza existe um universo, e ele move o mundo também.


30.4.18

Trem Paris-Londres 21/3/2018



"I hope our end has some flavor dear, I really do." foi uma frase de um poema que eu vi na parede de uma das exposições no Pompidou em Paris, do Jim Dine.

Quantas frases e cores e coisas e janelas de trem eu queria eternizar?

Escuto o piloto fazendo o seu comunicado padrão de sempre e desejando "bon voyage" e me lembro que a boa viagem é mesmo minha. Aquele momento ali é meu, é seu ou da pessoa no banco da frente, que carrega mais bagagens da vida do que aquela que ela tá carregando na cabine. Mais ninguém pode aproveitar ou viver tudo isso por mim, nem ninguém seria tão merecedor de sentir através de uma foto tudo o que eu senti presente. Tinha que ser eu. E daí me toquei.

Fiquei longe de conseguir congelar a cidade da forma que eu queria — ela que me congelou a 0 graus celsius de temperatura. Mas a falta de contato com o mundo do outro lado do oceano e com as interrupções digitais que nem a água salgada barrava fez com que eu canalizasse meu olhar em todas as coisas mundanas que esqueci que amava. Em perceber pessoas, lugares, sensações e todos os croissants, cafés au lait e macarons franceses que eram coloridos demais pra se desviar a atenção. E a neve, que era tão bonita em cima dos carros e nas ruas quanto nas minhas idealizações de infância — só não tão macia.

No meu passaporte eu carregava alguns carimbos — os primeiros —, na minha bolsa vários tickets de metrô e dentro de mim a certeza de que eu tinha ultrapassado várias fronteiras só em um átomo de tempo. Fronteiras aquelas que não me livravam das fronteiras metafóricas que eu tinha deixado pra trás, em casa. Elas continuavam aqui e tudo bem: só não dá pra deixar virarem barreiras. Prefiro continuar errando e tropeçando por aí e tentar de novo até ser melhor e dar certo. Mas deixar de acreditar (nas pessoas, em mim e no mundo) eu não deixo.

Queria responder o Jim Dine à altura. Que o fim — apesar de ser fim — foi maravilhoso e que teve mais de um gosto. Mas a verdade é que eu detesto o fim. E que eu não sei ser fim. Só sei ser pra sempre.

10.3.18



É engraçado como a gente sempre quer se achar dentro das outras pessoas. Um traço parecido, uma música que é marcante pra você e pra outra, uma língua em comum. É como um lar fora de casa, confortante e conhecido. Como descobrir que a gente não é único nesse universo.

Eu vou me encontrando em tanta gente por aí. E também vou deixando levarem vários pedaços de mim — pedaços que às vezes eu esqueço ou perco quando elas vão embora. Vira quase um mantra: "Pessoas só são diferentes até um certo ponto e pessoas que vão embora não são confiáveis." No final a semântica é a mesma, só a prosa muda.

Você diz que tudo isso é normal, que eu tenho que me acostumar. Mas a verdade é que o normal nunca me atraiu. Eu sempre gostei das cores mais desbotadas, de ir até o fundo do que tá mais escondido e imerso no mundo. E a verdade é que as pessoas só entendem o que elas querem entender, e o que elas estão prontas pra entender.

Ninguém nunca realmente tá no mesmo tempo, na mesma sintonia. Tá todo mundo aqui e ali, mas ninguém se fala com medo de não ser entendido. No final a gente só quer ser entendido.

11.12.17

O tempo passa e os ciclos terminam



Durante aqueles meses escrevi páginas de obrigação, arte e história que, mesmo sendo meu orgulho, me fizeram esquecer como é escrever de mim pra mim. Também vivi situações que me fizeram esquecer como é gostar de mim por mim mesma. Me perdi nesse tempo que esqueceu que eu tinha hora pra voltar.

Sempre acho que vou conseguir assumir o controle da situação. Que tá tudo bem, que o território não é desconhecido e que eu não vou tropeçar por aí. Mas acaba que a areia é movediça, a pista esburacada e acabo estagnada. A verdade é que eu nunca tô no controle — e isso me surpreende cada vez mais. Tem tanta coisa que eu não sei (ainda). Tanta coisa que é melhor nem saber.

A aleatoriedade das coisas me tira do eixo que deveria estar me levando pra casa. Mas eu sempre me deixo ir. Sempre deixo. Quero passar por todas as possibilidades de atalhos que existem na extensão do que eu sou até onde eu quero chegar. E se um dia eu acabar em alguma rua sem saída, eu vou saber como voltar — e começar tudo de novo. Um dia o ciclo sempre termina.

E eu posso estar errada. Posso até ser um monte de erros e alguns acertos juntos. Posso ter um pé aqui na terra e outro na estratosfera e nunca permanecer do mesmo jeito por muito tempo. Mas entre ter controle e acreditar, eu sempre vou preferir acreditar. Mesmo que eu não encontre nada no fim da trilha.

Eu sou tudo isso, nada mais e nada menos.

Não quero ser nada que não seja eu.