domingo, 5 de janeiro de 2020

Clair



Acho que o início dessa década soava pouco bucólico pro canvas pintado da vida que talvez tivesse em mente e você não quis esperar por ele. A madrugada das segundas-feiras também não tem felicidade embutida e os dias 30 nunca foram nossos favoritos, mesmo os de dezembro. Se eu não conhecesse a aleatoriedade das coisas ia dizer que foi tudo arquitetado pra dor entrar quase-que-imperceptivelmente. Mas não foi, não. O eufemismo pra isso seria aquele que diz que é como tentar acordar de um pesadelo e perceber que nem dormiu.

A gente espera uma coisa porque é a única coisa que dizem que se pode esperar e não outra — mas você sempre foi exceção em meio a estatísticas mundanas. A verdade é que eu não sabia. Não sabia que o universo tinha tanta pressa. E que ao mesmo tempo tinha tanta demora em me dar a maturidade pra aproveitar o que você carregava de história, arte e amor e que ficava disponível pra exibição em tempo integral a um cômodo de distância.

Clair: de Clairette, de lune, de luz, do Gilbert O'Sullivan e da sua juventude. Queria ter ouvido antes de você dormir mas agora eu só agradeço por ter ouvido segurando a sua mão. Que saudade do seu riso solto e sua paixão por flores e estampas de bolinhas. Luto nenhum na história deve ter sido tão colorido quanto o nosso agora.

Minutos antes de você ir sem querer cortei a ponta do dedo médio direito e até hoje não sarou. É que nunca vai sarar, vó. Mas eu vou cuidar. Te amo, mooi meisje.