1.11.17

Não sei se eu cresci ou se o mundo diminuiu.



Não sei se eu cresci ou se o mundo diminuiu.

Dez anos atrás aquelas calçadas pareciam grandes e assustadoras demais pra eu perder um rosto conhecido de vista. Elas depois virariam o palco das minhas idas e vindas diárias que só faziam minha cabeça e meus pés doerem — só alguns tantos metros de pisadas e histórias de vida ambulantes —, e eu não sabia qual época me dava mais medo.

O primeiro dia de junho era sinônimo de espera, frio nostálgico e morangos. Mas as massas de ar fugiram do roteiro com os anos e já não era mais tão divertido assim ficar mais velha. Acho que eu fiquei fadada a um crescimento muito pensado — aprendi a sentir demais quando o resto do mundo já vivia. Só porque eu queria traduzir tudo em várias palavras bonitas que registrassem isso pra sempre. E tá registrado: hoje fico atônita se eu não consigo colocar alguma coisa no papel.

Vai ver meu mundo diminuiu porque eu cresci. As coisas do dia a dia parecem cada vez mais miúdas e o tempo parece passar cada vez mais rápido porque é ultrapassado por coisas que a gente vai considerando mais importantes. É quase loucura pensar que aproximadamente 8800 horas cabem num ano que acaba em 12 piscadas. É loucura pensar que esse ano fiquei quase oito meses sem sequer abrir os olhos (e só agora enxergo o suficiente pra dar alguma coesão em tudo isso que passou tão rápido e ao mesmo tempo tão devagar).

O tempo passa e as coisas vão acontecendo mais e mais e se juntando com coisas que já existem e virando um enorme monte de coisas fazendo todo o resto diminuir e -


- vai ver eu só tenho medo de diminuir junto.

30.12.16

Aprendi

Aprendi a andar sozinha (a dançar sozinha). Aprendi a dizer mais "sim". Aprendi a dizer mais "não". Aprendi com esses sim's e esses não's. Aprendi com as intenções ruins das pessoas. Aprendi a ser mais desconfiada, mas que não dá também pra perder toda confiança. Aprendi que tem gente que mente pra se favorecer mais do que eu pensava. E que é muito humano tomar essas decisões ruins. Aprendi a conhecer mais pessoas — a re-conhecer pessoas. Aprendi que elas gostam de pré-julgamentos. Aprendi a não me abalar mais tanto com esses pré-julgamentos. Aprendi que todo mundo tem perspectivas diferentes sobre todo mundo. Aprendi que pouca gente fica no final. Aprendi a dizer adeus.

Aprendi também que eu posso ser eu. Que eu posso ser pássaro. Aprendi que sou forte e não mereço qualquer migalha. Aprendi que coincidências existem sim, mas que o destino sempre acaba dando uma mãozinha. Aprendi que tudo acontece por um motivo. Aprendi que eu tenho muito mais o que ver por aí. Aprendi a amar mais o mar. A sentir mais o cheiro da chuva depois de muita seca. Aprendi que sou só mais um tanto de pó de universo. Que eu sou feita de estrelas. Aprendi que o negativo inverte tudo, o preto vira branco e o branco vira preto (aprendi que eu tenho invertido muito as coisas). Aprendi a agradecer todo dia, que eu sou sortuda pra caramba. Aprendi que tudo muda. Aprendi que tudo passa. Aprendi que 2016 não foi um ano ruim, só não foi do jeito que eu queria. Aprendi que o mundo não acaba só por isso. Enfim aprendi.

Virei o ano passado chorando naquele mesmo sofá, do lado da labradora que cresceu comigo desde 2003: eu achava que era mesmo o fim do mundo — pra mim era. Depois disso tiveram ainda vários outros fins do mundo. Chorei em outros muitos dias do calendário, e a labradora já não estava mais lá. Parecia sempre um nó na garganta que acabaria de me enforcar, mas na manhã seguinte eu sempre acordava. Nunca vou esquecer que colocar um travesseiro no meio resolve tudo.

Não posso deixar de aprender que eu cheguei em mais um dia 31 de dezembro e isso não é atoa. Senti a luz do sol batendo no meu rosto hoje e tive finalmente a certeza que valeu a pena chegar. Eu tô aqui. 2017 tá logo ali. Só contar até doze de olhos fechados e ele chega, e depois mais um milhão de anos pra aprender mais um milhão de coisas. - Meu Deus, eu quero muito aprender. - Obrigada, 2016.

17.11.16

Voa.



Saudade de quando eu olhava pra frente e via o infinito. Saudade da água salgada no cabelo, que fazia interferência pra que nenhum pensamento ruim conseguisse entrar. Esfoliei meus pés, lavei a alma e achei que nada mais a partir daí iria me afetar. A gente sempre acha que na volta pra casa tudo vai estar diferente.

Pasmem: nunca tá. A vida continua do mesmo jeito, seguindo o mesmo curso que seguia quando a gente deixou ela aqui. A gente volta e tudo volta junto. A tatuagem que eu fiz pra marcar o ponto em que eu me libertei de algumas amarras perdeu um pouco do sentido quando de repente eu me vi presa de novo. Mas sei que quando olhar eu sempre vou lembrar que consigo sair de uma gaiola — quantas vezes eu quiser. O segredo tá nesse último verbo. Eu tenho que querer. E quero. E vou.

Sou uma andorinha que quebrou as asas diversas vezes em um período que foi mais duro que todas as correntes de ar que já teve que enfrentar. Mas renasço como fênix. E transcendo. Não é de hoje que eu preciso me reinventar e nisso eu sei que tem muita gente por aqui pra me ajudar.

Voa, vai.

10.9.16

Carta pra você nº2

Nunca mais vou mais acordar do seu lado. Nunca mais acordei. Essa foi a despedida mais longa da minha vida — aproximadamente 9 meses esperando a ficha cair, até a data de hoje. E eu odeio despedidas. Há exatamente 365 dias eu realmente não acreditaria se você me contasse a história toda a partir dali. Antes por ser tão boa, agora por ser tão triste.

Mas eu fui feliz. Eu realmente não achava que encontraria amor assim, mas encontrei. Nem alguém assim. E isso já valeu por tudo, pode acreditar. Sempre vou levar comigo a lembrança de que um dia vivi duas vidas ao mesmo tempo e na sintonia mais bonita e imperfeita. E mereci. E sou muito grata por tudo.

Acho que amadurecer é descobrir que as coisas mudam e as pessoas tomam rumos diferentes — e aceitar isso. Hoje, eu aceito que aqueles planos e quase-imagens do nosso futuro não vão sair dos fundos do meu subconsciente. E que aquele CD que você gravou com as nossas várias-músicas não vai quase mais sair da gaveta. Sei que você já aceitou faz tempo. Acho que a gente amadureceu. Juntos.

Sei também que você vai encontrar tudo o que procura e não achou aqui. Seja lá onde for. Vai tropeçar em muito amor e coisas boas no meio do caminho. E se tiver algumas pedras, vai saber sempre cair e levantar de novo.

Queria ter dito isso e tantas coisas mais, mas as palavras nunca foram muito com a minha cara e sempre fugiram quando eu mais precisei delas. Ficar em silêncio enquanto você dirigia com um nó na garganta e escrever esse texto depois pareceu uma boa ideia na hora. Só faltou a trilha sonora pro fim do nosso filme. Se eu pudesse escolher, seria essa: https://www.youtube.com/watch?v=M-K1LhncFao, mas a gente é tanta música e você é tão música que nem sei.

Não sei como agradecer, nem como dizer adeus agora.

Então até logo.