30.4.18

Trem Paris-Londres 21/3/2018



"I hope our end has some flavor dear, I really do." foi uma frase de um poema que eu vi na parede de uma das exposições no Pompidou em Paris, do Jim Dine.

Quantas frases e cores e coisas e janelas de trem eu queria eternizar?

Escuto o piloto fazendo o seu comunicado padrão de sempre e desejando "bon voyage" e me lembro que a boa viagem é mesmo minha. Aquele momento ali é meu, é seu ou da pessoa no banco da frente, que carrega mais bagagens da vida do que aquela que ela tá carregando na cabine. Mais ninguém pode aproveitar ou viver tudo isso por mim, nem ninguém seria tão merecedor de sentir através de uma foto tudo o que eu senti presente. Tinha que ser eu. E daí me toquei.

Fiquei longe de conseguir congelar a cidade da forma que eu queria — ela que me congelou a 0 graus celsius de temperatura. Mas a falta de contato com o mundo do outro lado do oceano e com as interrupções digitais que nem a água salgada barrava fez com que eu canalizasse meu olhar em todas as coisas mundanas que esqueci que amava. Em perceber pessoas, lugares, sensações e todos os croissants, cafés au lait e macarons franceses que eram coloridos demais pra se desviar a atenção. E a neve, que era tão bonita em cima dos carros e nas ruas quanto nas minhas idealizações de infância — só não tão macia.

No meu passaporte eu carregava alguns carimbos — os primeiros —, na minha bolsa vários tickets de metrô e dentro de mim a certeza de que eu tinha ultrapassado várias fronteiras só em um átomo de tempo. Fronteiras aquelas que não me livravam das fronteiras metafóricas que eu tinha deixado pra trás, em casa. Elas continuavam aqui e tudo bem: só não dá pra deixar virarem barreiras. Prefiro continuar errando e tropeçando por aí e tentar de novo até ser melhor e dar certo. Mas deixar de acreditar (nas pessoas, em mim e no mundo) eu não deixo.

Queria responder o Jim Dine à altura. Que o fim — apesar de ser fim — foi maravilhoso e que teve mais de um gosto. Mas a verdade é que eu detesto o fim. E que eu não sei ser fim. Só sei ser pra sempre.

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