8.7.18

Pó de universo



Ela que é meio pássaro. E meio peixe — desses fora d'água. Meio sem saber. De um jeito que nem todo mundo entende ou gosta ou aceita. Às vezes quer o mundo de perto. Às vezes se vê melhor afastada. E sabe que é bem melhor ser quem ela realmente é do que tentar ser outra coisa só pra ser aceita.

Queria eu ensinar pra ela que não precisa ser suficiente pra ninguém, e que suficiência é um bastar medíocre pra quem não se completa. Queria dizer pra ela se transbordar com o mundo, com as palavras e com pessoas que sublinhem suas partes mais bonitas, ao invés das que riscam. Que algumas delas foram meticulosamente escolhidas pra aparecer em certas fases da nossa vida e — mesmo que dure dois dias, dois meses ou dois anos —, o depois nunca é igual ao que seria sem isso. Tudo passa e se transforma, o estranho é viver a efemeridade disso.

De dia ela é mais feliz. Na maior parte do tempo nada acontece, como num filme francês. Acho que cansa tentar ser desesperadamente quem a gente quer ser. E cansa tentar ser agora quem a gente esperava ser — e nunca é. Eu, que sou ela, só quero ser ela mais uma vez. Quero ser a pessoa feliz às oito da manhã pelas ruas de Madrid, quero ser a pessoa cansada depois de nove horas de trabalho e mais duas horas de ônibus. Quero ser casa e carnaval, sair às 21 e voltar às 23, não querer ficar sozinha e não deixar quase ninguém entrar.

Não quero ser nada que não seja eu. Por trás de toda minha pequeneza existe um universo, e ele move o mundo também.


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